Inovar para sobreviver
De tempos em tempos, fazer
simplesmente as mesmas coisas deixa de ser suficiente para manter uma estrutura
saudável em funcionamento – o mundo, as relações interpessoais ou os próprios
agentes da ação se transformam. E, quando o entorno muda, a forma de pensar e
fazer também precisa evoluir. Inovar.
No campo da sustentabilidade,
inovação é essencial, já que o próprio conceito traz em si um olhar
diferenciado em relação a antigos modelos de produção e consumo. Atualmente, ações
realmente inovadoras trazem benefícios nos níveis econômico, social e
ambiental. “Esta onda pela qual passamos atualmente é similar à ascensão da
internet nos anos 2000: pode-se estar no topo dela ou ficar para trás e esperar
os outros tomarem a dianteira. Trata-se de uma escolha”, destaca o diretor do Centro
de Excelência em Inovação e Liderança de Cambridge (EUA.
Tornar produtos e serviços mais
verdes é um início, mas uma empresa realmente sustentável precisa estabelecer
um ciclo contínuo de inovação em sua base para lidar com os desafios do
aquecimento global – nesse sentido, o conceito começa a ser percebido como um driver
para a transformação das próprias organizações.
Para surfar nessa onda – e não
apenas ser levado por ela -, alguns desafios têm de ser superados. O primeiro
deles é cognitivo, afirmam professores da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
“A percepção e interpretação das diferentes variáveis externas fazem a
diferença entre um empresário de sucesso e outro malsucedido em qualquer setor.
Hoje, não conhecer processos como análise do ciclo de vida e ecologia
industrial dificulta a inovação”, avalia.
A perspectiva de inovar para a
sustentabilidade está longe de ser algo somente ligado às novas tecnologias –
sem repensar a própria estrutura muitas empresas deixarão de existir. Para o
diretor executivo da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), uma
organização inovadora sustentável atende às múltiplas dimensões do conceito em
bases sistemáticas (capacidade de identificar as ligações de fatos particulares
do sistema com o todo), gerando resultados positivos para si mesma e para o seu
entorno. “A empresa é um organismo vivo que interage com um ecossistema e do
qual depende. É necessário não somente inovar em produtos e serviços, mas focar
a sustentabilidade como um todo. Quando se fala no tema, há aquele mito de
‘inventar o iPad todo dia’,
mas isso é uma falha na visão sistêmica (formada a partir do
conhecimento do conceito e das características dos sistemas). Já possuímos
tecnologia para resolver boa parte dos problemas socioambientais”, avalia.
Cultura
para inovação
A famosa frase de Mahatma Gandhi – “Seja a
mudança que você deseja ver no mundo” – tornou-se quase um mantra: bem mais fácil de ser
repetida do que aplicada efetivamente. Sobretudo no âmbito das empresas, onde é
preciso consenso para evoluir em qualquer tema. Quando as estruturas
organizacionais estão baseadas em modelos antigos, muitas vezes não há espaço
para o novo. Inovação pressupõe liberdade para experimentar, correr riscos e,
possivelmente, perdas.
“As
corporações gostam da inovação, mas não dos inovadores
“Trazemos a vida real para dentro
da ‘sala de aula’. Quando chega o ‘teste’ final, o empreendedor já tem uma
empresa há quatro anos. Esse processo educacional não deveria ser desenvolvido
após as horas de trabalho ou no lugar delas. E o empreendedorismo em grupo é
muito importante porque não estamos falando somente em pessoas na administração
de negócios, mas sim de indivíduos com expertise em diversas áreas,
criando uma empresa em conjunto”, destaca a orientadora do Team Mastery
e outros programas de ensino para adultos do Team Academy, além de cofundadora
do The Hub Madrid.
O The Hub é um espaço físico dedicado ao trabalho inovador com o
objetivo de inspirar, conectar e “empoderar” a inovação social. Criado em
Londres, em 2005, o projeto conta com 28 instalações e cerca de 5 mil
integrantes. “O The Hub é o lugar, o network, e o Team Academy, o time
para criar projetos reais e fazer a mudança acontecer. O que estamos fazendo
agora é basicamente combinar essas estruturas e trabalhar nossos projetos em
cima do triplle bottom line”.
Recentemente, o Grupo
Santander Brasil, o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem
Comercial), a Society of Organizational Learning (SOL), o The Hub e o
Team Academy trouxeram a São Paulo três “treinadores” para estimular a reflexão
e gerar novas ideias sobre os modelos educacionais no Brasil.
O programa finlandês e o Senac
estabeleceram um acordo-piloto para os próximos três meses para dar
continuidade à experiência com uma equipe formada por Henna, como treinadora, e
mais dois empreendedores de equipe do Team Academy da Espanha e da Finlândia.
Durante esse período, a eles irão aplicar as ideias do programa original junto
a vários grupos do Senac (o de Empresa Júnior, por exemplo) e realizar
workshops com empresas parceiras.
Novas propostas como essa têm
sido utilizadas por diversas organizações para mudar a mentalidade dos
colaboradores e ampliar sua pró-atividade em relação às sugestões inovadoras.
Mas o processo requer empenho e paciência para conservar o conhecimento
daqueles engajados em contribuir para a evolução organizacional. “Todo gestor
comprometido a fazer essa mudança no curto prazo acaba falhando. Não se pode
simplesmente mudar a cultura substituindo as pessoas; assim se perde
conhecimento. À medida que a organização evolui, o indivíduo desinteressado
pela sustentabilidade passa a ser um corpo estranho”, avalia Corrêa, da FNQ.
De acordo com o Innovation Barometer da GE,
uma pesquisa independente realizada com mil líderes de negócios de 12 países e
conduzida pela empresa StrategyOne, a maioria dos executivos brasileiros
acredita que o desenvolvimento de talentos está entre os principais fatores
para direcionar medidas inovadoras com sucesso. Além disso, a mais recente Pesquisa
de Inovação Tecnológica (Pintec/2008) do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) constatou que entre as 41,3 mil empresas
inovadoras em produtos e processos, no período 2006-2008, 69% realizaram ao
menos uma inovação organizacional.
O primeiro passo desse movimento
requer uma nova forma de liderar. Ou seja: os próprios líderes têm de ser
inovadores. A liderança em grupo é um dos conceitos aplicados pelo Team
Academy, no qual esse papel varia entre os membros da equipe de acordo com os
desafios enfrentados. “Todos os indivíduos do grupo devem saber como
liderar e como ser um ‘seguidor’ – um conhecimento crucial. A nova liderança
baseia-se na cocriação. Dessa forma não é necessário convencer, motivar ou
explicar nada a ninguém, pois todos são parte da solução. Assim obtém-se o
potencial pleno do time”, avalia Anita, do The Hub. Henna, do Team Academy,
completa: “Na Finlândia, apenas 4% dos formandos criam empresas. No cenário de
nossa organização mais de 40% o fazem. Não precisamos de seguidores para a
próxima geração, precisamos de líderes de times”.
A chamada liderança “amigável”
também é outro conceito do Team Academy que vem ganhando força – a cada dia o
profissional deve reconquistar seus colaboradores. “É preciso ganhar
essa posição por meio de atitudes. O papel de líder não vem de títulos, mas de
ações, do trabalho humilde desenvolvido diariamente junto a seu time”.
Embora mais ligada a um modelo
clássico, a liderança “participativa” também conquista seu espaço. É preciso
que alguém dê o direcionamento adequado às ideias e banque a tomada de decisão,
“como no caso de um cirurgião-chefe liderando sua equipe para dar o tratamento
correto a um paciente”, exemplifica. O processo de liderar, no entanto, não diz
respeito apenas a um indivíduo. “A força do grupo é impressionante, as pessoas
começam a trazer ideias. Mas as lideranças muitas vezes são inseguras em
relação a esse processo, para o qual necessita-se transparência e ouvir os
outros”.
O Time Virtual de
Sustentabilidade (TVS) da BASF trabalha justamente no sentido da
formação de uma nova geração de líderes e influenciadores da gestão para a
sustentabilidade. A equipe conta com uma ferramenta estratégica online
denominada Matriz de Gestão para a Sustentabilidade, que tem como base a
Matriz de Evidências da consultoria britânica SustainAbility. “O
time foi criado em 2008, como um grupo de trabalho virtual para ampliar a
estrutura de gestão da sustentabilidade da empresa na América do Sul e,
atualmente, conta com 39 participantes”, explica Gislaine Rossetti, diretora de
Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da BASF para a região.
Ambiente
para arriscar e criar
A pressão exercida por movimentos
ambientais, legislações e sociedade em geral sobre a atitude das empresas em
relação às questões socioambientais tem impulsionado uma evolução na iniciativa
privada. Ao mesmo tempo, as corporações dispõem de uma capacidade enorme de
identificar possibilidades de inovação que nem academia nem governos possuem.
Por isso, investem para internalizar a sustentabilidade e inovar baseando-se
nas oportunidades advindas da ascensão do tema.
A Braskem, por exemplo,
quer ser líder mundial em química sustentável e investe, atualmente, R$50
milhões por ano em inovação – quase todo esse montante voltado à
sustentabilidade. “O grande desafio começa por internalizar o conceito no
negócio, manter uma equipe empenhada no tema e depois ampliar o olhar, não
apenas para a inovação direta do seu produto, mas para a cadeia. O problema (do
aquecimento global) é tão grande que é preciso encontrar soluções totalmente
revolucionárias, disruptivas. Se você entende a necessidade de dar passos
firmes, no longo prazo, então irá seguir o caminho da inovação”, avalia Jorge
Soto, diretor de Desenvolvimento Sustentável da empresa.
Para criar um ambiente propício à inovação, alguns
critérios devem integrar a gestão e o ambiente de negócios. No âmbito interno,
liderar com visão sistêmica, valorizar as pessoas e tolerar erros são fatores
essenciais. Para atender a essas demandas, as organizações precisam avaliar
suas práticas e sanar possíveis gaps. “Por um lado a empresa deve ter
uma prática de gestão de risco de suas iniciativas e desenvolver estratégias de
como mitigá-los, pois irá submeter as pessoas a processos de criação intensos.
A taxa de erro é alta quando tudo é novo. E muitos produtos sendo desenvolvidos
hoje podem não ter sucesso, também por questões externas, culturais”.
A Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por exemplo, investe em projetos
voltados à inovação “verde” em várias modalidades. Os programas Pesquisa em
Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) e Pesquisa Inovativa em
Pequenas Empresas (PIPE) disponibilizaram, em 2010, R$18,2 milhões e
R$13,5 milhões, respectivamente.
Em fevereiro de 2008, um acordo
da Fundação com a Braskem passou a apoiar pesquisas relacionadas a temas
sustentáveis e dois projetos seguem em andamento: um sobre a substituição de
insumos de origem fóssil por insumos renováveis, outro na obtenção de
matérias-primas de interesse da indústria de biocombustíveis. O convênio prevê
investimentos de R$ 50 milhões ao longo de cinco anos, valor repartido entre a
empresa e a Fapesp.
De acordo com Hitendra Patel,
três áreas serão estratégicas para a inovação nos próximos anos: energias
renováveis, reciclagem e reúso – sendo a primeira mais complexa devido à
competição acirrada com os combustíveis tradicionais, mais potentes. Para o especialista,
o Brasil tem muito a contribuir nesse campo, enfrentando os atuais obstáculos
tecnológicos e investindo em pesquisas.
Hoje, mais de 45% de toda a
energia consumida no País provêm de fontes renováveis, enquanto nos países
desenvolvidos esse percentual chega a apenas 13%. Dados da Empresa de
Pesquisa Energética (EPE) revelam que o Brasil deve manter a proporção de
quase 50% de renováveis, até 2030.
Os desafios tecnológicos,
portanto, vão desde a consolidação das técnicas de produção de etanol até o
domínio de novos processos para o desenvolvimento dos biocombustíveis de
segunda geração – a partir de bagaço da cana-de-açúcar, por exemplo.
A Financiadora de Estudos e
Projetos (Finep), ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, não dispõe
de estatísticas relativas ao investimento direto relacionado à inovação para
sustentabilidade, mas afirma que o valor total de recursos destinados à
economia verde tem apresentado um crescimento anual de 20%. Os financiamentos
concentram-se, sobretudo, nas áreas de energias renováveis e biocombustíveis,
mudança do uso do solo na agroindústria e tecnologias verdes, representando mais
de 75% do total de R$ 2,04 bilhões da carteira reembolsável contratada
ou em contratação, desde 2004. No que diz respeito à carteira não reembolsável,
desde 2002 já foram destinados cerca de R$ 960 milhões para projetos verdes.
Desse valor, R$ 817,4 milhões (85,2%) são voltado à redução de emissões de
carbono.
Uma nova
maneira de fazer
Criar uma cultura voltada para a
inovação não é um movimento simples – mas pode ser extremamente gratificante.
De acordo com Patel, a organização entra em um ciclo contínuo de novos valores
e até novos lucros. Primeiro, aumenta efetivamente seu próprio valor, gerando
um reconhecimento por parte dos investidores e do mercado – o que possibilita
adquirir financiamentos a custos mais baixos. Em segundo lugar, a empresa
consegue atrair os estudantes e profissionais mais criativos e bem preparados –
vantagens que corporações como Google, Yahoo, Apple e Motorola
possuem hoje, lembra o especialista. Como terceiro “prêmio”, as empresas
percebidas como inovadoras conquistam a admiração de fornecedores – os melhores
virão até elas e, por vezes, trarão junto também as melhores ideias. Por fim –
a mais almejada vantagem -, a conquista do consumidor, que tende a pagar mais
por produtos e serviços inovadores. “Para a marca, além da utilidade provida pelo
produto ou serviço também há uma atitude percebida como inovadora. Combinando
esses quatro fatores cria-se um ciclo de inovação. E, uma vez inserida nele,
continua-se a inovar por muito tempo”, destaca Patel.
Empresas de diversos nichos têm
estudado sua forma de pensar e desenvolver produtos de modo a torná-los
referência no mercado ao mesmo tempo em que contribuem com a credibilidade da
marca também pelo viés da sustentabilidade. Ideias surgem de todos os lados.
Na Pepsico, o
processo de inovação vai do nível global ao local. A partir da análise de
cenários são estabelecidas algumas grandes plataformas de investimento e a
transferência tecnológica se dá após a identificação de mercados-piloto
empenhados em receber as iniciativas. No processo inverso, para alguma ideia
local ser replicada, a troca de informações acontece por meio de fóruns da
comunidade de P&D.
Workshops
de
geração de ideias também estimulam a participação dos colaboradores de todas as
áreas. Além disso, a empresa mantém os chamados Times Autogerenciáveis
(TAGs). “Esses times possuem total autonomia dentro daquela estrutura celular
para identificar áreas de oportunidade, modificação de processos e melhorias. A
ideia é aprovada entre eles e reportada para o gerente da fábrica. Isso
acontece com frequência no Brasil, por exemplo, na planta de Itu”, destaca
Andrea Álvares, presidente da Divisão de Bebidas da Pepsico Brasil.
Na Braskem, busca-se identificar
a possibilidade de tornar competitiva a utilização de uma matéria-prima
renovável em produtos que já estejam no mercado. Segundo Soto, o sucesso da
sustentabilidade depende da escala, algo não muito simples de se conquistar com
um produto inteiramente novo. Por isso uma alternativa está na adaptação.
“Nesse caso, as máquinas e os clientes já estão preparados. Existe um ambiente
para a entrada do produto em grande escala. Essa é a nossa lógica: buscar quais
são as adaptações possíveis”, avalia.
Na Siemens, o processo de
inovação se dá a partir de uma mescla de métodos: um road map
tecnológico – pelo qual se avalia uma linha de produtos pensando no futuro e
buscam-se as competências necessárias para atualizá-los em universidades e
banco de patentes, por exemplo – e a metodologia Pictures of the Future, que
contempla os setores de infraestrutura de cidades, energia, saúde, e indústria.
A partir dessa perspectiva, clientes, governos, entre outros stakeholders,
são entrevistados; e especialistas ouvidos para a projeção de cenários mais
longos. As áreas de pesquisa derivam de três grandes temas – envelhecimento da
população, surgimento de megacidades e tendências em energia.
“Após fechado esse cenário, o trazemos
para o presente num processo denominado retropolação e chegamos a
conclusões de mudança de paradigma que não podem ser superadas apenas com a
evolução tecnológica. Nesse confronto percebemos os gaps e desenvolvemos
as linhas de pesquisa a partir daí”, conta Ronald Dauscha, diretor de
Tecnologia e Inovação da Siemens.
Olhando para o futuro, a empresa
possui um fundo de capital semente (do inglês, seed capital. Capital de
terceiros que ajuda a bancar a fase inicial de um empreendimento), denominado Technology-to-Business
(TTB), para companhias inovadoras com até dois anos de vida e 30
funcionários; e a Siemens Venture Capital (SVC), para organizações
maiores. Além disso, pretende chegar em 2014 com 56% de produtos considerados
verdes em seu portfólio. Atualmente, essa proporção é de 28%. Para Dausha, os
clientes não se importam em pagar mais por esses bens. “O valor de uma turbina
mais eficiente, por exemplo, se recupera com a economia feita em energia. Isso
vale para todas as áreas”, destaca.
Para desenvolver a expertise
necessária e apresentar novas soluções ao mercado, muitas empresas mantêm seus
próprios centros de pesquisa. E as multinacionais, inclusive, têm se inspirado
no potencial empreendedor do brasileiro para instalar pólos desse tipo no País.
O novo Centro de Pesquisas Global da GE, que está sendo construído no
Rio de Janeiro e tem conclusão prevista para o primeiro semestre de 2013,
proverá soluções junto aos demais stakeholders para suprir demandas
relacionadas à infraestrutura. Cerca de US $170 milhões serão investidos no
projeto.
Já a Renault possui o Tecnocenter,
na França, que realiza um trabalho muito forte junto ao meio acadêmico.
“Trazemos projetos das universidades para dentro da engenharia da empresa e a
partir daí nascem muitas soluções”, afirma Antonio Calcagnotto, diretor de
Relações Institucionais e vice-presidente do Instituto Renault.
A importância de criar um
ambiente inovador é tão grande que algumas empresas têm focado seu trabalho
exatamente nisso. Organizações como a IDEO, consultoria global voltada
para o design de pensamento, trabalham uma abordagem de inovação visando
atender às necessidades das pessoas, as possibilidades de tecnologia e os
requisitos para o sucesso dos negócios. “Em vez do departamento de P&D
gastar fortunas para inventar soluções, o método de design de pensamento mostra
como gerar respostas e colocá-las no mercado de forma mais rápida a partir do
trabalho da equipe”, destaca Anita, do The Hub.
Do ponto de vista externo, voltado ao mercado,
visão estratégica e sistêmica e relacionamento próximo aos stakeholders
também são indispensáveis. Além disso, outras condições influenciam a motivação
das organizações para arriscar ou não novas empreitadas – incentivos ficais,
marcos regulatórios estáveis e infraestrutura acessível geram um ambiente
favorável. Apoios dos órgãos de fomento à pesquisa também são bem-vindos.
A necessidade traz a inovação.
Apesar de óbvia, a afirmação soa oportuna. Se começar a faltar luz ou água numa
cidade como São Paulo durante um mês, por exemplo, as empresas vão se preparar
para oferecer linhas de geradores mais baratos – exemplifica Ricardo Corrêa, da
FNQ. “A sustentabilidade vai criar uma demanda por produtos e serviços novos de
uma forma única. As empresas, no seu planejamento estratégico, precisam
perceber a chegada dessa demanda. É uma grande oportunidade de negócio ter o
produto certo no momento certo”, avalia.
Observando essa perspectiva, a GE
investiu cerca de US$ 1,8 bilhão em 2010 para pesquisa e desenvolvimento de
produtos verdes por meio de sua linha Ecomagination, com intenção de
chegar a US$ 10 bilhões, até 2015, de acordo com o último relatório da empresa.
Entre as soluções, destacam-se a estação de recarga WattStation, para
acelerar a implementação de veículos elétricos, e a tecnologia Nucleus,
para medição inteligente e controle do consumo de energia residencial.
Porém, muitos desafios ainda
terão de ser enfrentados pelas empresas inovadoras. Segundo o estudo da Pintec
(Pesquisa de Inovação Tecnológica/IBGE), entre as barreiras mais mencionadas
estão os custos elevados (73,2%), os riscos econômicos excessivos (65,9%), a
falta de pessoal qualificado (57,8%) e a escassez de fontes de financiamento
(51,6%). Mais da metade – 55,8% – das empresas afirmam não inovar devido às
condições de mercado pouco favoráveis.
Em algumas indústrias nas quais a
situação atual é mais desafiadora – como a automobilística, onde as
possibilidades de produção começam a ficar limitadas – também surgem novas
oportunidades. Ainda segundo o estudo da Pintec, o setor teve taxa de inovação
superior a 80% no período de 2006 a 2008. Seguindo essa tendência, a Renault
tem investido em motores à combustão mais eficientes e carros elétricos – a
empresa, primeira marca a produzir esses veículos em grande escala, já
investiu, mundialmente, mais de US$4 bilhões nesses produtos. Porém, alguns
desafios ainda precisam ser superados, como a questão da recarga, ainda
complexa.
Antevendo a necessidade de
mudança, algumas empresas começaram a agir antes mesmo da implementação das
legislações – condição necessária para a transformação em grande escala -,
inclusive criando novos campos de negócios a serem explorados.
Renato Orsato, da FGV, cita a Tetra
Pak como um case emblemático. “A empresa aumentou a reciclagem das
embalagens longa vida de 12% para 26%, em dez anos, com iniciativas próprias,
criando uma cadeia de valor que não existia até então e hoje representa algo em
torno de 90 milhões de reais por ano. Além disso, é um modelo com possibilidade
de ser implantado muito bem na Índia, na China e em outros países. Passamos,
dessa forma, de País observador para atuante”, ressalta.
Na era da eletricidade, saber
lidar com vários sistemas simultaneamente também abre um novo campo para a
inovação. O movimento de infraestrutura em cidades é o caso mais significativo
para a Siemens, destaca Dauscha. “Cada vez mais teremos como base uma matriz
elétrica – em veículos, centros regionais de energia solar e processos como o
de energia distribuída. Para atender à demanda dessa nova realidade, o smart
grid (rede inteligente de sistemas de comunicação e infraestrutura que
cobre diversos dispositivos e sensores para gerar informações de operação e
desempenho) é uma tendência”, avalia.
Para identificar soluções
inovadoras, a empresa promove o Prêmio Werner von Siemens de Inovação
Tecnológica, com o objetivo de oferecer suporte às novas ideias de
estudantes e pesquisadores brasileiros, além de empresas incubadas, tendo como
principal foco o segmento eletroeletrônico. Por meio do prêmio já surgiram
projetos para o desenvolvimento de nanotubos de carbono – para reduzir as
perdas em redes de transmissão de energia – e geração eólica em sistemas de
ar-condicionado. Iniciativas como essas colocam a Siemens entre as três
empresas consideradas mais “verdes” no mundo – atrás de Toyota e 3M
-, de acordo com pesquisa da consultoria de gerenciamento de marcas Interbrands.
Inovação
no Brasil
De acordo com os resultados do
último Índice Global de Inovação, produzido pela instituição de ensino
de negócios e pesquisa INSEAD, o Brasil subiu 21 posições, em 2011,
ocupando a 47ª colocação – atrás de países como Malásia, Chile e Costa Rica.
Suíça, Suécia e Cingapura figuram entre os primeiros colocados. Além disso, o
País ficou em 24° lugar no uso de energias renováveis (44,5% da matriz
energética) e 7º no item pegada ecológica e biocapacidade.
De acordo com Orsato, é mais
difícil fazer negócios no Brasil em função da burocracia, mas o brasileiro é
muito empreendedor. “Temos uma abertura para a mudança que países mais
tradicionalistas não possuem, além do entusiasmo em inovar”.
Para Henna Kääriäinen, quanto
menos recursos se têm, mais inovador se é. A especialista do Team Academy toma
como exemplo a própria Finlândia, em comparação com nações como Equador e
Brasil. “Provavelmente nos países em desenvolvimento existe uma necessidade
maior de inovar, diferente de lugares onde há muita equidade e se tem todos os
recursos necessários”, avalia.
Ainda segundo a pesquisa da
Pintec, o crescimento do percentual de empresas inovadoras que utilizaram ao
menos um instrumento de apoio governamental foi de 18,8%, entre 2003 e 2005,
para 22,3% no período 2006-2008, evidenciando a importância da participação do
setor público nesse processo.
Para Dauscha, da Siemens, hoje o
Brasil exporta commodities com muita tecnologia em seu processamento,
como a soja e o etanol. Porém, precisaria vender produtos com maior valor
agregado. “Qualquer país que conclui a importância disso auxilia suas empresas
compartilhando os riscos. O desenvolvimento desses produtos leva tempo e
existem três grandes ferramentas governamentais para suporte: incentivos
fiscais, subsídios e compras do próprio governo. Mas, para obter os benefícios
desses fomentos, as organizações necessitam desenvolver um trabalho efetivo na
área de P&D. Também é preciso manter um bom relacionamento com as
comunidades e saber dialogar”, pontua.
Com o crescimento populacional
previsto para as próximas décadas, países em desenvolvimento vão enfrentar
dificuldades para atender às demandas das classes emergentes. Daí a pressão
cada vez maior por soluções inovadoras. De acordo com Patel, China e Índia
terão milhões de pessoas querendo consumir tanto quanto aquelas que já tiveram
oportunidade de fazê-lo e isso pressionará imensamente os recursos, fazendo com
que esses países sejam mais motivados a buscar soluções. “O que os governos
podem fazer? Reconhecer de fato que esse processo acontecerá e continuar
educando consumidores para comprar produtos verdes, enquanto as empresas devem
encarar essa demanda como uma oportunidade e criar soluções”, propõe.
Devido à ausência de políticas
públicas em alguns setores, muitas mudanças devem acontecer apenas no longo
prazo. No caso do automotivo, a integração dos veículos elétricos às frotas das
cidades brasileiras certamente precisará de mais estímulos. “O Brasil deve oferecer
subsídios à inovação, mas não acredito que isso aconteça no curto prazo para o
veículo elétrico. Investimos muito no etanol, que não polui em seu ciclo
produtivo, mas polui nas ruas. Em função da política de desenvolvimento do
etanol eu do pré-sal, creio que o governo irá investir mais nessa área”, afirma
Calcagnotto, da Renault.
O Ministério da Ciência e
Tecnologia (MCT) investiu, desde 2007, R$ 304,47 milhões em uma linha de
ação específica para Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento Nacional em Biocombustíveis.
Do total dos investimentos, R$ 196,90 milhões foram alocados para o Programa
de Ciência e Tecnologia do Etanol e R$ 107,57 milhões para o Programa
Tecnológico do Biodiesel. Só em 2010, o MCT destinou R$ 34,32 milhões para
o programa biodiesel e R$ 66,30 milhões para o do etanol. Além disso, o Plano
Conjunto de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético
e Sucroquímico (PAISS), uma parceria da Finep e do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) contempla três linhas
diferenciadas de pesquisa na área e conta com R$ 1 bilhão em recursos a serem
aplicados, de 2011 a 2014.
Já existem, no entanto, algumas
linhas de financiamento para dar suporte a outros tipos de inovação. O Fundo
Tecnológico (Funtec) do BNDES destina recursos para áreas como bioenergia,
desenvolvimento de novas tecnologias para a geração de energia eólica, controle
e tratamento de resíduos sólidos, entre outros.
Parcerias
estratégicas
Se a velha economia representava
o regime do “cada um por si”, hoje a história é bem diferente. Fechar os olhos
à necessidade de compartilhamento e preservação de recursos tornou-se uma
atitude perigosa, quase suicida. E conceitos como a ética passam a ser revistos
dentro desse cenário. Para Ricardo Corrêa, da FNQ, o grande desafio atual da
gestão encontra-se justamente na capacidade de cooperar por uma causa comum, um
esforço de dimensão global que foi deixado num plano secundário ao longo dos
anos. “Países que estiveram em guerra recentemente vão ter dificuldade em se
integrar por um bem comum. A humanidade passa por um dilema essencialmente
ético”, avalia.
Nesse sentido, as parcerias são
essenciais para a inovação. De acordo com estudo da Pintec, entre as cinco
principais fontes de informação utilizadas pelo setor industrial (até 2008)
para realizar o processo de inovação estavam clientes (68,2%) e fornecedores
(65,7%). Ainda segundo a pesquisa, do total de 41,3 mil empresas inovadoras,
apenas 10,4% haviam estabelecido algum tipo de prática cooperativa com outras organizações
para inovar.
Com a ascensão da chamada
Inovação Aberta (Open Inovation), esse trabalho conjunto deve evoluir.
Sobretudo levando-se em conta a expertise e a capacidade de pesquisa
dentro das universidades, por exemplo. Como as soluções levam tempo para
amadurecer, tais parcerias devem ser planejadas com antecedência. “Quando
imaginamos cenários futuros, as universidades estão mais organizadas para
pesquisar soluções, que levam de cinco a dez anos para sair do papel. A
academia é mais paciente para focar isso. Grandes empresas devem estar muito
integradas com o meio acadêmico para as soluções emergirem”, destaca Hitendra
Patel, do Centro de Excelência em Inovação e Liderança de Cambridge.
Nesse sentido, a Siemens possui
uma rede mundial para cadastrar e acompanhar todas as parcerias com as
principais universidades e globalizar suas experiências e inovações. Além
disso, propõe desafios abertos à comunidade por meio de uma plataforma 2.0
colaborativa. “Trabalhamos com todos os parceiros possíveis, do fornecedor ao
cliente, e utilizamos essa plataforma para coletar opiniões e desenvolver
mecanismos para internalizar ou externalizar tecnologias”, ressalta Dauscha.
Na Braskem, a parceria com
universidades tem rendido bons frutos. Cinco pesquisadores do Departamento
de Genética, Evolução e Bioquímica do Instituto de Biologia da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp) foram contratados pela empresa para integrar
o projeto Rotas Verdes para o Propeno, do Programa Parceria para
Inovação Tecnológica (PITE) da Fapesp. O investimento total é de R$ 8
milhões, valor dividido entre as duas organizações.
Para viabilizar as soluções
encontradas pelo projeto, a empresa fez um acordo com o Laboratório Nacional
de Biociências (LNBio), também em Campinas. O convênio prevê a Plataforma
Biotecnológica Braskem, num espaço alugado pela empresa dentro da própria
instituição. “A inovação não pode ser isolada; principalmente no Brasil,
onde os recursos disponíveis são escassos. É preciso um forte relacionamento
com as universidades porque a inovação começa com uma troca de ideias, uma
ajuda mútua na busca de alternativas. E isso acontece muito dentro desses
ambientes”, avalia Jorge Soto, da Braskem.
Já Alcoa Foundation lançou
a Pesquisa sobre a Promoção da Sustentabilidade: Parcerias Inovadoras para
Soluções Factíveis, com US$4 milhões destinados a financiar projetos de
pesquisa em sustentabilidade por dois anos. A iniciativa, que envolve
pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de mais 14
instituições de ensino e organizações não governamentais, será aplicada pelo Institute
of International Education, dos Estados Unidos, e os pesquisadores deverão
investigar temas relacionados à gestão de recursos naturais, ciência e
engenharia de materiais, design sustentável, energia e economia ambiental. Os
resultados serão publicados online e disponibilizados para
pesquisadores, comunidades e demais interessados.
O setor público – maior beneficiário das patentes
de inovação – também precisa desenvolver de forma efetiva seu papel. Segundo a
pesquisa Innovation Barometer da GE, há uma alta confiança em parcerias
público-privadas para alavancar um ambiente inovador. “Não se pode simplesmente
falar sobre o futuro: deve-se ter um plano. Os governos podem agir por meio da
regulamentação, entre outras medidas. O país que o fizer de forma mais
agressiva será mais competitivo – vemos isso em economias como Suécia e
Cingapura, mais saudáveis e robustas. No Brasil, Curitiba (PR) está progredindo
em sua abordagem de energia e sustentabilidade; e, como resultado, tem atraído
empresas, pessoas e os mindsets certos. Certamente terá mais vantagens
no futuro”, finaliza Patel.
http://www.ideiasustentavel.com.br/2011/08/inovar-para-sobreviver-2/













Nenhum comentário:
Postar um comentário